27 junho 2006

 

Somnio.. ( parte II - fine )

- Podíamos ir jantar à praia. Tou cheia de fome. - dizes-me tu com um sorriso malicioso nos lábios.

A luz vai deixando que as sombras se tornem em quase nada...naquele momento em que não é dia nem noite... Vou divagando e deixo de te ouvir. Perco-me em pensamentos dementes. Podíamos estar ali só os dois, com aquela luz mágica a trespassar os vidros... podia desabotoar um a um os botões do teu vestido, mergulhar os dedos nos teus cabelos e despentear-te....cravar as unhas na tua pele morena, ali, em cima daquela mesa.

Ouvir-te dizer o meu nome...
- Estás bem?
Perguntas enquanto deslizas a tua mão no meu braço...
Aceno que sim. Fiquei meio atrapalhado e não quero responder com medo que a voz falhe. O teu toque desperta-me, faz-me arrepiar a pele, provoca efeitos secundários, faz-me sorrir.

Entrelaças os teus dedos nos meus e dizes-me:
- Vamos?
- Vamos...
Saimos dali e abraço-te.

A musica alta no carro faz com que a adrenalina se liberte. Vais-me olhando de esguelha enquanto conduzes e sorris. Procuras-me a mão que apertas contra o teu peito. Sinto o bater do teu coração.

- Sabes que te desejo?
E enquanto dizes isto, encostas o carro na berma da estrada.
- Sei...
- Sabes que não quero perder nem mais um momento?
Há carros que passam e buzinam mas nós, nós estamos no nosso momento, pouco importa o resto do mundo. Mordo-te os lábios ao de leve, finalmente. Finalmente desaperto os botões do teu vestido, apalpo finalmente o teu corpo, beijo-te a pele morena. Finalmente despenteio os teus cabelos.

E as tuas mãos que deslizam em cada pedaço de mim.
Na avidez, no prazer, na luxuria, no êxtase..
Os perfumes tocam-se, as almas entrelaçam-se, os corpos abraçam-se..

As luzes dos carros que passam, deixam-me ver, de quando em vez os teus olhos. E surpreende-me ver com que intensidade me olhas. O desejo espelhado no olhar..
Tocas-me como querendo que fique preso a ti para sempre. Beijas-me. E tu sabes...

Abocanhas-me o sexo com uma lingua mágica, como as mãos..
Puxo-te com força...encaixas tão bem em mim!

A musica alta deixa que os teus gemidos contidos se libertem sem pudor. Gosto do teu sabor. Estar assim, de corpos suados, que sobem aos céus, descem aos infernos...que por espasmos voltam à terra. Não sei se sou eu em ti ou tu em mim...

26 junho 2006

 

Somnio.. ( parte I )

Cheguei primeiro mas sei que não vais tardar. Sento-me numa mesa junto à imensa janela com vista para o mar e fico ali a ver as gaivotas num céu que se espelha no mar a perder de vista.
Vejo-te, ao longe, a chegar. Trazes óculos escuros, um vestido de verão com um decote tentador. Quando entras, tiras os óculos e os teus olhos procuram-me. Vês-me e sorris com uma boca de lábios que apetece descobrir os sabores...e morder. Levanto-me e envolvo-te a cintura com o braço direito, com determinação.
Dás-me um beijo. Só um, com um olhar cabisbaixo.
Sinto-te um perfume que entontece. Intenso aroma adocicado que me enaltece os sentidos..

E dizes-me com um sorriso malicioso:
- Esse teu cheiro...
Fechas os olhos por um instante como se quisesses guardar e eu sorrio. Sem te dizer que pensava o mesmo.

Vais à varanda enquanto posso apreciar as tuas formas esbeltas escondidas com muito pouco tecido. Sentados, damos largas à imaginação e rimos de nós. Tens humor, gosto. És uma falsa tímida, adoro.

Aos poucos falas do que sentes sem medo e sem a minima vontade de te esconderes...
O sol lá fora pincela o céu em mil tons de cores quentes...e cá dentro ouvem-se músicas que nos fazem sonhar...e cá no fundo, deixo-me fascinar. Só porque estou ali, só porque estou contigo..

19 junho 2006

 

Fado

É frequente ouvir-se dizer que o fado é triste. Cada vez que falo com alguém de outro país sobre o fado, é-lhe sempre rasgado um elogio à sua beleza e tipicidade, mas a conversa passa sempre por algo não muito longe do "Que triste".

É até a razão que muitos dos portugueses que não gostam de fado apontam para justificar a sua escolha.

Pois eu... Discordo, completamente !

Antes de mais, sob a designação "Fado", cabem subgéneros muito diferentes.. pelo que, olhá-lo só da perspectiva do fado tradicional, é algo um completamente descabido e redutor.

Mas mesmo aquelas canções que são designadas por fado tradicional não creio que possam ser descritas como tristes. É certo que versam temas melancólicos e aludem, frequentemente, à SAUDADE.

Mas será a saudade um sentimento, necessariamente triste? Creio que não, longe disso. Para mim, o fado é muito mais que isso. É introspectivo, denso, profundo, ENVOLVENTE.

Hoje o portugês orgulha-se por o Mourinho é tuga, ou pq a selecção é o que é.. Deveriamos orgulhar-nos tb de coisas com muito mais nexo ao que nós somos!

***
Quando ele passa, o marujo português
Não anda, passa a bailar, como ao sabor das marés
E quando se jinga, põe tal jeito, faz tal proa
Só para que se não distinga
Se é corpo humano ou canoa
Chega a Lisboa, salta do barco num salto
Vai parar à Madragoa ou então ao Bairro Alto
Entra em Alfama e faz de Alfama o convés
Há sempre um Vasco da Gama num marujo portugués

Quando ele passa com seu alcache vistoso
Tráz sempre pedras de sal no olhar malicioso
Põe com malicia a sua boina maruja
Mas se inventa uma carícia, não há mulher que lhe fuja
Uma madeixa de cabelo descomposta
Pode até ser a fateixa de que uma varina gosta
Sempre que passa um marujo português
Passa o mar numa ameaça de carinhosas marés

Sempre que passa um marujo português
Passa o mar numa ameaça de carinhosas marés !

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